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Clemente, criado e dançado por Andreia Pires e direção de Vinícius Arneiro

Por: Rodrigo Monteiro
abril - 2026
Crédito: Nicolas Gondim

Nem tudo o que aparece faz aparecer

 

Em pinturas renascentistas, mas não apenas nelas, um recurso técnico fundamental guia, há séculos, a nossa fruição: o ponto de fuga. É para ele em que converge o solanco da percepção visual. Ele pode ser tanto a ignição primeira que sinaliza as direções e os vetores do olhar, como também pode ser, ele mesmo, um lugar para ficar. Clemente, solo criado e dançado por Andreia Pires e com direção de Vinícius Arneiro, opta pela segunda possibilidade: o jogo de perspectiva criado com a movimentação sutil de Andreia, no início da apresentação, faz com que ela, sendo uma espécie de ponto de fuga, nos embriague, ao ponto de não nos fazer fugir para qualquer outro lugar. Delongadamente, olhamos para algo que não se define e que, por isso, de alguma maneira, indetermina uma leitura rápida e assertiva daquilo que começa a se manifestar.

Por um bom tempo, os olhos tentam tatear a escuridão do espaço, mas é através do crepúsculo acionado pelas delicadezas dos movimentos de Andreia que o tato, de fato, se faz despertar. Como diria Lygia Fagundes Telles, é no crepúsculo, ou seja, no meio-tom, onde reside a beleza – e não na luz da manhã ou na sombra da noite. Clemente explora os meios-tons de gestos, luzes e sons, de modo que os meios despertados pela obra provocam pequenas reterritorializações perceptivas. Os meios, aqui, para além de serem compositores das mensagens, são também uma espécie de massagem. Isto é, os recursos utilizados na coreografia não são meros condutores de algum significado dado, mas tensionam ritmos e texturas nos trópicos da visão.

Ainda em um ponto de fuga que sequestra a atenção e afugenta a banalização, as imagens se distorcem e geram distintas camadas de interpretação: cotovelos apontados para o alto ora parecem asas, ora parecem grandes ombreiras de um vestido; cabelos confundem-se com véus, mas também se confundem com uma capa que se estende à vestimenta. É nesse jogo de ambiguidades em que Clemente tensiona uma questão que, atualmente, tem sido amplamente abordada em diferentes contextos: a identificação. Em Clemente, a identidade, ao invés de ser reforçada, é transfigurada, remexida e desestabilizada. É através desse movimento que temos a chance de ativar habilidades cognitivas outras, que, no lugar de identificar, busca desidentificar objetos e processos. A desidentificação talvez seja um contradispositivo mais efetivo para a percepção se revitalizar em tempos de apatia das sinuosidades.

O trabalho também mexe com algo fundamental no que diz respeito à dança: a exploração das materialidades. O tônus de um corpo que equilibra uma pá na cabeça e a ambientação de um som que se faz num grunhido são elementos que trazem à dança a chance de contestar a enganação. Ou seja, não se constrói a cena a partir da colagem de materiais (temas, objetos, discursos, imagens, personalidades etc.) supostamente impactantes, ou que sejam, de partida, políticos e/ou poéticos. Ou a política e a poética se constroem na relação estabelecida naquele momento e naquele lugar, ou, ao contrário, artificializam-se maneiras para que os seus simulacros tomem a cena. Clemente se coloca presente porque faz emanar ao invés de fazer transcender. Contesta a enganação porque preza pela emergência radical e concreta da presença, o que, certamente, se mostra muito mais poético e político do que a simples proliferação discursiva dessa qualidade. Nessa obra, a presença não é um substantivo, mas um advérbio.

No mosaico de espelhos utilizados no chão da cena, cria-se um delay nas imagens que são refletidas. Não se trata apenas de uma distorção do que é visto e do que é espelhado, mas a nova composição tracejada mexe também com o ritmo de algo que se constrói. O tempo de representação das imagens é, com isso, corrompido, o que faz com que, assim como na escuridão do começo da apresentação, o olhar se decupe em vários. Os reflexos criados em cacos e contratempos convidam-nos a uma qualidade outra de fruição e de reflexão.

Em um determinado momento, o figurino e o espelho põem na horizontal o corpo de Andreia, que, até então, permanecia em uma sustentação trepidante. Nessa superfície criada, que se assemelha a um lago que reflete o céu, surgem ondulações provenientes da respiração da dançarina. E, assim como na luz refletida por um lago, o que vemos é uma superfície que impõe o limite e a fronteira para que o profundo não se exploda. Quando a complexidade daquilo que compõe um sistema – seja ele uma obra de dança, um sujeito, um hábito cultural ou um pensamento – é alta, a superfície torna-se o seu elemento mais profundo.

O casulo do momento final, criado com um tecido escuro pincelado com tons de vermelho-sangue, indica que a mudança é sempre uma opção, e que em algum momento ela vem à tona, mesmo que seja no fim. Clemente, em sua sinopse, faz menção à relação entre vida e morte, mas é na constante metamorfose da observação, gestada em diversos momentos do trabalho, que se anuncia uma possibilidade de se encontrar acionamentos variados para a própria existência.

Em tempos em que o parecer ter e o parecer ser dão o tom dos comportamentos, compõe-se também uma certa qualidade dos modos de existir. O fazer-se visível não é apenas excessivo, mas é também compulsivo. Impedindo-nos de notar os crepúsculos germinados pelas delicadezas, a visibilidade, enquanto comportamento, torna-se também uma meta-visibilidade, ou seja: a visibilidade da visibilidade. Tal armadilha viciante não almeja nada além de sua própria reprodução.

Nem todo trabalho cênico de dança que parece um trabalho cênico de dança faz emergir questões que, de fato, movem algo. Nem toda obra de dança que insiste em certas temáticas, afirmando-se através de sua constante aparição, consegue, necessariamente, promover aquilo que enuncia. Pelo contrário, na dança, muitos e muitas têm, ingenuamente ou cinicamente, se contentado apenas com a aparição da simulação. Clemente, na contracorrente dessa maré, ao não querer aparecer (nem parecer), acaba por fazer aparecer.

 

Ficha Técnica:

Direção: Vinícius Arneiro

Criação e performance: Andreia Pires

Trilha sonora: Tom Monteiro

Figurino: Zé Filho

Iluminação: Jimmy Wong

Cenografia: Aurora dos Campos

Foto: Nicolas Gondim

Produção: Corpo Rastreado – Keila Maschio

Rodrigo Monteiro

Rodrigo Monteiro é professor e pesquisador das Artes do Corpo. Interessa-se pela aliança entre a curadoria e a crítica, bem como pelos agenciamentos artísticos e culturais que podem emergir do encontro desses campos. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua trajetória profissional, teve contato com referências e experiências artísticas que o guiaram para os estudos teóricos sobre o corpo, as ciências cognitivas, a semiótica e a filosofia política. Com isso, as Artes do Corpo, como por exemplo a Dança e o Teatro, são vistas por ele à luz de uma ótica indisciplinar, que, ao propor conexões inabituais, convida o pensamento a se movimentar.

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