
O sutil do erótico
Atualmente, há alguns estados corporais com os quais ou não mais sabemos lidar, ou os quais têm se modulado a partir da obstrução de uma sensibilidade da subjetividade. Por um lado, muitos sentimentos hoje desprezados, com qualidades mais morosas, a exemplo do tédio, tiveram e ainda têm o seu valor para fazer ver o que não é óbvio – sobretudo enquanto propósito compositivo de muitos artistas. Diante do que não nos oferece nada de imediato ou de previsível, temos que lidar com a insistência de um pensamento não-utilitário, que, ao divagar sobre si mesmo, se desdobra e se depara com os seus hábitos, suas recorrências e seus próprios limites. Por outro lado, na condição de estarmos cada vez mais rígidos e menos afetados pelas sutilezas do mundo, tudo aquilo que não é explícito parece impossível de ser percebido. A cultura do excesso e da hiperestimulação disparou uma infinidade de micro vedações, que gradualmente impedem que os nossos poros respirem o ambiente ao redor. A demasia de informações e de estímulos é, talvez, uma condição que não apenas afugenta o tédio e outros sentimentos de baixa frequência, como também faz com que construamos condições para não termos que lidar com essas sensações. Por esse motivo, muitas escolhas artísticas optaram e continuam a optar por proposição de ambientes em que o tempo seja alargado e ralentado; que o pouco, no lugar do demasiado, seja a matriz da criação. Diante de um estado moroso aprofundado por muitos criadores, fortuitamente uma expansão da subjetividade pode ser experimentada.
CRUSH, coreografia de Rafaela Sahyoun, dançada por Inês Galrão e Gustavo Cabral, consegue mostrar que, surpreendentemente, nem todo excesso de estímulos é condição de dessensibilização, e que há, na dança, diferentes caminhos para se desestabilizar os hábitos de pensar. O trabalho acentua, com isso, que há uma dimensão maior e mais complexa no que diz respeito à elaboração de questões nos territórios das artes. Não há fórmulas de sucesso, e quando algumas delas começam a ser sinalizadas, é sempre bom lembrar que os imperativos morais são assombrações constantes, inclusive em cenários considerados aparentemente aptos a lidar com eles.
Na investigação que faz – e que certamente contribui com uma não-moralização dos modos de se pensar e fazer dança –, CRUSH alcança um tônus que se sustenta pela repetição, mas que leva à diferenciação. O enraizamento quase que integral das bases de Galrão e Cabral no chão, isto é, de pernas que não se deslocam, coloca-os em um modo de presença que faz lembrar um jogo de luta vintage de videogame, daqueles em que os personagens gesticulam em estacado, e que lançam pequenos golpes e superpoderes contra seus adversários. Na escolha de Sahyoun por bases que se fixam, tanto no corpo de quem dança quanto no de quem vê a dança, o movimento parece começar a vibrar em pontos específicos e isolados, como por exemplo joelhos ou quadril, mas que, em poucos segundos, irradia para todas as extremidades.
A condução da coreografia está em estreito diálogo com a sonoridade, criada por Yantó. Em CRUSH, a trilha não é paisagem de fundo para a dança, pois se apresenta também enquanto pensamento compositivo. A batida do som atravessa e qualifica cada macro e micro gesto desenhado pelos dançarinos; e cada gesto apresentado, por sua vez, rebate o som, trans-significando-o em uma nova atmosfera.
O tudo junto amalgamado (de sons, figurinos, luzes e passos) remete a um futuro distópico – daqueles retratados em filmes como Mad Max, Blade Runner e Duna. Seres mais-que-humanos transfiguraram uma representação habitual do que é humano, fazendo aparecer qualidades que, longe de serem inexistentes, parecem mais estar submergidas. No tom cyberpunk de CRUSH, é no jogo de sutilezas, paradoxalmente suscitadas a partir da hiperestimulação, em que se dá uma experiência no pensamento.
Assim como a trilha sonora, o desenho de luz criado por Aline Santini tem papel fundamental na composição. Em uma primeira metade da apresentação, a cena se revela através da contraluz. A luz que é jogada contra quem dança e quem vê a dança faz realçar as sombras, mas que não por isso apontam para o sombrio. Pelo contrário, em CRUSH, a contraluz e as sombras despertam no imaginário um oculto vivo e pulsante.
Outra aposta da coreografia é a da ambiguidade dos gestos, que ao recusarem a fixação de um ou outro sentido, amplificam as possibilidades de significação. Em um certo momento, depois de as bases de repetição terem sido instaladas, uma figura que ora remete ao sagrado, ora ao profano, pontua uma fase de transição do trabalho. Uma nova luz se reflete sobre a cena, evidenciando um cenário também ambíguo dos limites de representação entre dor e prazer.
Para aquilo que não é explícito e para o qual nossa sensibilidade tem ficado mais tapada, CRUSH brinca com um erotismo que parece ter sido destreinado nos últimos tempos – e erótico, aqui, é bem diferente do seu contrário, ou seja, do pornográfico, este que se lambuza do escrachado e do escancarado. CRUSH propõe-se a, eroticamente, afinar-nos para perceber o delicado e o volátil de cada instante, sem que, para tanto, seja necessário recorrer a acionamentos que lidam com a redução de uma frequência de tempo ou de visualidade – o que não significa, obviamente, que experimentações dessa natureza também não consigam despertar esse tipo de efeito.
Estar eroticamente no mundo talvez também seja uma possibilidade de nos atravessarmos pelo que não é previsível ou útil. CRUSH mostra que há muitos caminhos possíveis para que esse estado seja experimentado na dança. Materializa na batida, na repetição e na revelação as diversas potências de desejos. Dentro de um turbilhão de excessos orquestrados e coreografados, faz o sutil vibrar e se espraiar.


