Oblíqua
Voltar para críticas

Tudo ao seu redor, de Ana Carolina Yamamoto e Vinicius Brasileiro

Por: Rodrigo Monteiro
junho - 2026
Crédito: Felipe Castro

Tudo ao seu redor, de Ana Carolina Yamamoto e Vinicius Brasileiro

 

Quando movimentos promovem movimentos

 

Breve nota de entrada

Antes de adentrar nas questões do trabalho, apresento, de forma breve, o contexto de sua apresentação. O propósito é dar fundamento ao texto, mas também problematizar o papel reflexivo sobre e para trabalhos que se encontram em processo de criação. Espera-se, com isso, que para além de análises ou juízos, esta reflexão opere: 1) para os artistas envolvidos, como catalisadora de um experimento já iniciado e 2) para as pessoas interessadas na leitura – que tenham ou não assistido ao trabalho –, como subsídio que auxilie, metalinguisticamente, para a complexificação dos pensamentos que têm sido desenvolvidos na área de dança.

 

Do contexto

De 1995 a 2002, na antiga sede da Cia Nova Dança, localizada no bairro do Bixiga, em São Paulo, aconteceu o projeto Terça de Dança, que destinava um dia da semana para apresentar trabalhos cênicos em estágios de investigação. Naquele projeto e naquele local, havia uma espécie de resistência e insistência (afinal, foram 7 anos) para que os processos de criação fossem compartilhados. Nesses encontros, cultivava-se também a formação de públicos para experimentos que fugiam de modelos mais convencionais de apresentação. Agora, no mesmo prédio onde outrora fora usado pela Terça de Dança acontece o Corre de Terça, projeto encabeçado pela Casa Farofa. O intuito é semelhante: abrir um espaço para que artistas e públicos possam se encontrar e testar linguagens, percepções e modelos outros de curadorias. O Corre de Terça, com isso, segue como importante programação para a dança na cidade de São Paulo, não apenas porque dá continuidade e faz referência direta a um projeto ímpar, o Terça de Dança, mas também porque se abre como um lugar em que realmente ainda é possível se experimentar, sobretudo em tempos marcados por repressões que estão cada vez menos sutis e mais escancaradas (a exemplo do ocorrido recentemente com a 46ª edição do Edital do Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo), e que fazem com que a erosão criativa se instaure nos mais variados setores.

 

Tudo ao seu redor

Em um desses Corre[s] de Terça, no dia 09 de junho, na edição de número 9 do projeto, apresentaram-se Ana Carolina Yamamoto e Vinicius Brasileiro, com Tudo ao seu redor, trabalho que teve colaboração e provocação de Aline Bonamin, trilha sonora de Thayná Bonacorsi, iluminação de Afonso Costa e apoio técnico e operacional de Felipe Castro. Na descrição de divulgação, é mencionado que os artistas estão investigando “um estado escultórico e contínuo de atenção minuciosa aos pontos de apoio, fricção e sustentação entre os dois corpos, gestando progressivamente um campo de tensão e intimidade capaz de ficcionalizar o espaço”. Nesse sentido, bom frisar que a intenção do trabalho está no estado escultórico, e não na escultura como um suposto objeto estático – já que, vale dizer, a escultura, por mais rígida e imóvel que pareça ser, ainda assim, promove movimentos no espaço onde está. O estado escultórico poderia ser compreendido, então, como uma qualidade de acionamento da atenção, e não apenas a atenção de Ana Carolina e de Vinicius, mas também das pessoas que estão ao redor.

Em termos de percepção fina – ou, em outras palavras, em termos de apreensão apurada das qualidades e da alteração do corpo e do ambiente –, Tudo ao seu redor explicita que ao redor de um está, no mínimo, sempre um outro. A categoria de outro, aqui, não é restrita a um sujeito, já que se expande para um entendimento de alteridade radical. Nem sempre a diferença que confere tal radicalidade está longe ou em contextos muito díspares, pois ela pode estar, também, internalizada nos hábitos não-conscientes de nosso pensamento. O trabalho de Ana Carolina e Vinicius convida a mover tais hábitos, não para conferir-lhes alguma consciência, mas para fazer perceber que a existência de um ao redor se dá através dos atravessamentos de diferenças. Para se ter um ao redor, é imprescindível combater o mar de mesmos que tende a inundar nosso imaginário.

Em dança, é relativamente fácil identificar quando uma questão está se apresentando enquanto prática discursiva, ou se, pelo contrário, apresenta-se enquanto um movimento que consegue criar movimentos. No estágio de criação em que está, Tudo ao seu redor sinaliza que vai na contramão do que muitos têm feito, que é encobrir as questões que dizem trabalhar (sejam elas inspiradas em assuntos sociais, políticos, ecológicos etc.) com recursos retóricos poeticamente escamoteados. Com Ana Carolina e Vinicius, a questão é presentificada no tônus do gesto, o que não leva à enganação.

Seria possível dizer que, no trabalho apresentado, existe uma busca constante pela fusão de um corpo com o outro. Nessa dinâmica, no entanto, não haveria um tipo de dialética, na qual um terceiro, surgido do um com o outro, sintetizaria o encontro. Não há síntese, nem unificação, pois a constância na negociação para se estar ali e manter o momento vivo requer a materialidade da dialogia.

A atenção dada aos pontos de apoio – descrita na divulgação – põe em jogo um importante elemento para a cena: as fundações e alicerces, que, na dança, ao invés de trazerem rigidez ao corpo, precisam engendrar a metaestabilidade do movimento. Em Tudo ao seu redor, os apoios de dois corpos, que ficam quase o tempo todos sobre os joelhos, criam triângulos cujos vértices pulsam o ritmo da cena. Ana Carolina e Vinicius figuram o desenho triangular de montanhas com bases largas e fortes, bases essas que sustentam picos longínquos e imponentes.

Os rostos – ou os picos das montanhas – comunicam tanto quanto os apoios. Não são, portanto, neutros nem isentos. Talvez como provocação de Aline Bonamin, para quem o rosto também é passo de dança, com Ana Carolina e Vinicius as feições não se resumem a expressões vagas que criam uma sincronia forçada entre movimento e emoção. Por exemplo, não se trata de interpretar a tristeza de um corpo que padece, ou sorrir em momentos de leveza e alegria. Os olhares e toda a musculatura da face não precisam respeitar uma coerência inventada para validar o que se passa em todo o corpo.

Seguindo essa mesma lógica, que explora mais as dessincronias, há outros elementos da cena que, ao invés de enfeitarem o movimento, compõem com ele, levando-o para lugares inusitados. Alguns desses elementos são os sons emanados pelos dançarinos e as luzes que criam tessituras. Há também objetos, a exemplo de uma bala de goma que, ao ser retirada de sua embalagem plástica, cria descompasso deliberado com o que estava sendo mostrado até então. Todos esses recursos, combinando-se com o que estava sendo acionado na relação entre os corpos de Ana Carolina e Vinicius, deslocaram o volume do ambiente. O espaço, com isso, na investida de ser friccionado e ficcionalizado, era também escrutinado. Em outras palavras, a apresentação foi um convite para a atenção investigar detalhes de trajetórias; esmiuçar como pontos de apoio criam, ao mesmo tempo, sustentação e locomoção; conferir que, embora seja um processo praticamente invisível, a massa que se incide sobre nós, e que está ao redor, está o tempo todo se transformando.

Tudo ao seu redor joga luz sobre o invisível e ajuda a dimensionar a complexa rede de informações que constituem um entorno. A invisibilidade de muitos fenômenos, aliás, está amplamente presente em nossa vida cotidiana. O tempo de execução de diversos movimentos, a exemplo dos que são feitos por montanhas, é de grau geológico e, por isso, nesse caso, não conseguimos apreendê-los. Nossa limitação perceptiva, contudo, não faz com que esse fato deixe de existir. Ao contrário: tanto o tempo das montanhas quanto muitos outros da natureza não apenas continuam ocorrendo, como também, queiramos ou não, se impõem sobre nós. A percepção que temos sobre o tempo de certas coisas não irá alterar a estrutura delas, mas a constatação e a observação desse processo podem, quem sabe, requalificar o modo como percebemos e agimos sobre os movimentos das coisas.

Rodrigo Monteiro

Rodrigo Monteiro é professor e pesquisador das Artes do Corpo. Interessa-se pela aliança entre a curadoria e a crítica, bem como pelos agenciamentos artísticos e culturais que podem emergir do encontro desses campos. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua trajetória profissional, teve contato com referências e experiências artísticas que o guiaram para os estudos teóricos sobre o corpo, as ciências cognitivas, a semiótica e a filosofia política. Com isso, as Artes do Corpo, como por exemplo a Dança e o Teatro, são vistas por ele à luz de uma ótica indisciplinar, que, ao propor conexões inabituais, convida o pensamento a se movimentar.

crossmenu linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram