
Um alimento para o planeta
Temporalmente Vivos, de Gustavo Miranda e Maurício Flórez, traz foco para a questão de que a existência não se esgota em seu fim, mas que, talvez, a finalidade da vida seja justamente encontrar maneiras de garantir a sua extensão em diferentes e diversas formas de manifestação.
Uma divagação: em sua qualidade de advérbio e em um sentido mais expandido, o termo temporalmente comunica algo que desperta para a imensidão do tempo manifestado nas singularidades de cada evento. Nessa perspectiva, é possível dizer que, em todo acontecimento que se dá temporalmente, existe uma dimensão ontológica da ordem do "fala-se". Tal enunciação extrapola a duração da vida de um único ser, uma vez que o individual se constitui no atravessamento da continuidade de toda uma espécie. Desse "fala-se", que é coletivo e temporal, presentifica-se, temporariamente, a possibilidade de se proferir um "eu falo", que, embora único, é permeado pela multidão que o agencia.
Temporalmente Vivos organiza-se a partir de enredamentos cênicos, a exemplo de repetições textuais, usos de objetos cenográficos, além do próprio prólogo, que oferece e mantém a densidade do trabalho. Em uma das cenas, sugere-se uma imagem já clássica na literatura ocidental: o diálogo entre o Pequeno Príncipe, famoso personagem de Antoine de Saint-Exupéry, e sua rosa. Trata-se de uma sugestão apenas, já que, de fato, quem está em cena é Mauricio Flórez e uma rosa vermelha. Na ocasião, Flórez dialoga com a flor, comentando, por exemplo, que quando um ser perde a conexão com o seu contexto, a morte chega aos poucos. Em O Pequeno Príncipe, por sua vez, é mencionado que o tempo de cuidado dedicado à rosa foi o gesto responsável para que ela se tornasse tão valiosa. Temporalmente Vivos e O Pequeno Príncipe não são obras que propositalmente se cruzam, mas ambas apontam para elementos que certamente ajudam a pensar as microativações constantes que o ato de viver pede.
Flórez e Miranda colocam em cena indagações que buscam entender a vida a partir de seu contrário, que, no caso, não é a morte, mas o desencantamento. Ao invés de ser associada à ideia de fim, a morte compõe-se nas inúmeras camadas que enredam a vida. Flórez e Miranda poetizam a questão, alertando para o fato de que os riscos mais sérios para a perda da vitalidade são aqueles em que um estado de anestesiamento se instaura.
Pode parecer paradoxal, mas uma das principais ignições que nos faz estar vivos é a iminência do fim. Essa presença espectral, que nos rodeia o tempo todo, permite, por exemplo, que sejamos capazes de criar. A própria linguagem é uma dessas criações, uma vez que é através dela que tentamos desenvendar os mistérios de nossa existência. É também através dela que conseguimos garantir a continuidade da nossa presença no mundo. Seguindo essa lógica, Temporalmente Vivos joga com a linguagem que o constitui sob esses dois pontos de vista: 1) indaga sobre a relação vida/morte e 2) materializa-se como uma obra que faz estender, em um tempo que sucede a apresentação da peça, a existência de Flórez, Miranda e de todas as questões por eles apresentadas.
Um ponto importante a se destacar é que o trabalho explora ludicamente os seus materiais. Desde a combinação das luzes, projetadas por Patrícia Savoy, que ora iluminam, ora adensam a escuridão, até os diferentes objetos cênicos, criados por Marcos Yamamoto, Temporalmente Vivos brinca com a sua questão. E brincar, aqui, é entendido como algo sério, já que é a partir de muitas brincadeiras que descobertas são feitas. Nesse sentido, a relevância da obra se dá, de partida, porque não adere à lógica quase que dominante das práticas discursivas. Em outras palavras, a questão principal não é meramente veiculada para se responder aquilo que já se sabe, mas ela é experiencialmente tencionada e experimentalmente tensionada. Apesar de falar sobre morte e vida, o trabalho joga, brinca, testa e explora tal questão quando propõe, por exemplo, que podemos rir na mesma medida em que podemos refletir diante da finitude. É possível rir e se indignar em situações em que a morte é tratada enquanto negócio de uma funerária, ou quando é apresentada como assunto moral de uma igreja. Nesses e em outros momentos, e do começo ao fim, é sempre destacado que a morte é a garantia da continuidade da vida, seja de um indivíduo, seja do planeta.
Flórez e Miranda, em um determinado momento, informam que a velocidade de rotação da Terra é de aproximadamente 1.670 km/hora. Embora também estejamos, junto com o planeta, nos movendo com toda essa rapidez, não conseguimos sentir esse giro. Não percebemos essa condição talvez pelo fato de que não somos meros residentes do planeta, ou seja, de que apenas estamos nele, mas que somos quem somos devido à intrínseca condição de sermos com ele. No entanto, assim como a rosa que esvanece aos poucos quando retirada da terra, nós também cavamos os nossos desencantamentos quando rompemos os vínculos com aquilo que nos cerca. Não sentir a velocidade do giro da Terra pode ser sinal de conexão e de vínculo com ela, mas, ao mesmo tempo, não sentir nada, nenhuma oscilação, pode ser ponto crítico e preocupante de dessensibilização.
Temporalmente Vivos faz pensar/sentir que os diversos seres que já passaram por aqui, como os dinossauros, cumpriram com um propósito maior de existência: colocar a vida em movimento. Esses e outros seres tiveram e ainda têm quase que uma função de adubar a Terra, sendo também uma espécie de alimento do planeta. Nós, contudo, na condição temporária e temporal de contribuir com a nutrição de nossa morada, necessitamos cultivar constantemente nossos reencantamentos e, por conseguinte, nossa vitalidade. A protocoperação entre a existência da Terra e a nossa evidencia-se aqui, pois, para podermos continuar alimentando o planeta, é importante também que dele nos alimentemos, e não somente de seus recursos, mas sobretudo dos seus maravilhamentos.






