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A mon seul désir [Ao meu único desejo], de Gaëlle Bourges

Por: Rodrigo Monteiro
outubro - 2025
Crédito: Thomas Greil

Uma alegoria dos costumes

An allegory of customs [EN below]

 

Na História da Arte, há uma série de debates que são criados a partir de obras que respondem umas às outras. Para além de relatos e textos reflexivos, que contribuem para um tracejado historiográfico de momentos e pensamentos de períodos distintos, a própria arte enquanto sistema de conhecimento gera dialogias materiais responsáveis por sua garantia, manutenção, continuidade e transformação. A mon seul désir [Ao meu único desejo], de Gaëlle Bourges, surge nesse contexto não apenas como tradução em dança de questões desenvolvidas em uma outra linguagem, mas também como tentativa de problematizar tópicos que, há séculos, retratam gênero e moralismo enquanto elementos condicionados a uma única e mesma subordinação.

A mon seul désir inspira-se e responde diretamente a um conjunto medieval formado por seis tapeçarias conhecido como A Dama e o Unicórnio, tecidas, provavelmente, no final do século XV, na região de Flandres, na Europa. Cada uma das tapeçarias simboliza um dos cinco sentidos corporais: gosto, visão, audição, olfato e tato. O sexto sentido abordado por esse conjunto, e que foge à regra das lições de fisiologia, é ignição para a criação de Gaëlle Bourges. A tapeçaria desse sexto sentido chama-se a mon seul désir, que, assim como o trabalho dançado de mesmo nome, faz emergir uma outra dimensão fisiológica, sedimentada no desejo. O sexto sentido compõe-se através de todos os demais, tecendo-se a partir não somente de seus hábitos, como também das incompletudes que os abrem para a possibilidade de serem algo outro. O desejo é, ao mesmo tempo, produto e combustível das nossas percepções do mundo.

O modo como percebemos o mundo, aliás, não é apartado dos jogos de representação que sobre ele são feitos. A História da Arte teve e ainda tem papel fundamental para nutrir os sonhos que modulam tanto a imaginação quanto a conduta. Em A mon seul désir, Bourges indaga por que e como imaginários e comportamentos, presentes em obras como A Dama e o Unicórnio, perduram e ainda enquadram as manifestações do desejo.

A composição de A mon seul désir segue uma organização semelhante à proposta das tapeçarias no que diz respeito à criação de alegorias. Na obra medieval, os cinco sentidos são simbolizados a partir de diferentes retratações: (1) uma dama que se serve de doces ofertados por uma criada (paladar); (2) a dama que toca um instrumento (audição); (3) a dama sentada segurando um espelho e um unicórnio que a contempla através de seu reflexo (visão); (4) uma grinalda sendo feita, da qual uma das flores é apanhada e cheirada por um macaco (olfato); (5) a dama tocando o chifre do unicórnio, enquanto um leão observa a cena (tato). O sexto sentido, contudo, é confeccionado em uma tapeçaria mais larga, cuja narrativa denota interpretações variadas, que vão desde a renúncia das paixões despertadas pelos sentidos até a expressão de uma pureza que se dá a partir da virgindade. A mon seul désir de Bourges sinaliza-se como uma alegoria que, combinando todas as outras, explode a dimensão retraída representada na obra medieval. Se, nas tapeçarias, o unicórnio era o ser mitológico que somente se aproximava daquilo que era caracterizado como puro, na coreografia de Bourges é a figura de um outro animal, o coelho, que redimensiona as categorias já sedimentadas.

A mon seul désir é uma coreografia que, assumidamente, se faz a partir de uma tecnologia e de uma comunicação analógica. Na Teoria da Informação, o que distingue uma mensagem digital de uma analógica é o modo como as unidades de informação são transmitidas. Na digital, elas se manifestam separadamente (a exemplo do alfabeto, das notas musicais e dos sistemas numéricos); na analógica, há uma continuidade entre os elementos, de modo que, sem que seja possível realizar uma contagem precisa de unidades, comunica-se de forma direta (a exemplo de mapas e gráficos). A performance de Bourges, portanto, lida, analogicamente, com as múltiplas camadas de significação construídas ao longo de sua realização. Ao comunicar a partir de um pensamento que se faz em correspondência, ativa blocos inteiros de construção poética, trazendo para o movimento as visualidades, os sons, os cheiros, os sabores e as texturas espraiadas nas tapeçarias.

Por exemplo, em um momento específico da apresentação, uma multiplicidade de nomes de flores é narrada. De lírios e rosas a crisântemos e outras mais que são menos conhecidas e proferidas, há um acionamento sinestésico que, embora seja iniciado pela palavra falada, se entrelaça com outros domínios fabulatórios orquestrados em cena. A memória, a escrita visual poeticamente caligrafada e os movimentos das dançarinas levam-nos a rever as tapeçarias de outras maneiras, agora não mais pela ingenuidade moralizante.

Aparentemente feita com apenas três dançarinas e uma narradora, a criação de Bourges, de repente, assim como os coelhos, multiplica-se: surgem, em uma espécie de segundo ato, uma vastidão de pessoas em cena. Ao longo de todo o trabalho, há imagens de figuras diversas, tanto mitológicas (presentes nas tapeçarias, como o unicórnio, o leão e o macaco), quanto banais, como a simples presença de corpos nus variados em suas diversidades e singularidades.

A criação, em certo momento, desperta uma provocação, apresentando a diferença entre o que é caro à dimensão da física (a exemplo de uma mulher grávida que, para estar nessa condição, não pode ser mais virgem) e o que cabe à metafísica, isto é, aquilo que só pode ser compreendido se ultrapassarmos os domínios lógicos da física (como no caso da plausibilidade do mesmo exemplo, da relação entre virgindade e gravidez). De algum modo, A mon seul désir nos convida a puxar algumas interpretações para a ordem da metafísica, além de instigar que os entendimentos sejam traduzidos em condutas outras. A lasciva de um coelho, por exemplo, em movimento contrário à “moral pura” simbolizada pelo unicórnio, pode ser uma provocação para que representações limitantes, presentes tanto na História da Arte, quanto nas midiatizações do corpo que são construídas no nosso tempo, não mais coordenem a máquina de tear de nossa imaginação.

O espetáculo faz menção ao filme Apocalipse Now (de Francis Coppola, de 1979), afirmando que, nesse filme, sensações variadas são misturadas, a exemplo de beleza, terror e espanto. Utilizando-se de uma música presente da trilha sonora do filme, A mon seul désir termina com This is the End, canção da banda The Doors, que diz:

 

Este é o fim,

Belo/a amigo/a

Este é o fim

Meu/minha único/a amigo/a, o fim

 

Dói te libertar

Mas você nunca vai me seguir

O fim das risadas e das mentiras suaves

O fim das noites em que tentamos morrer

Este é o fim

 

A morte de certos paradigmas e o fim de determinados hábitos (de pensamentos, de ações e de representações) são processos custosos, delongados e dolorosos, mas extremamente necessários para que o mundo possa se transformar. A mon seul désir surge, com isso, como mais uma voz dentre muitas outras que têm respondido com um não para certas continuidades do mundo.

 

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An Allegory of Customs

In the History of Art, a series of debates have emerged from works that respond to one another. Beyond narratives and reflective texts – which contribute to a historiographic tracing of moments and ways of thinking across different periods – art itself, as a system of knowledge, produces material dialogues responsible for its own preservation, continuity, and transformation. A mon seul désir [To my only desire], by Gaëlle Bourges, emerges in this context not merely as a translation into dance of ideas first developed in another language, but as an attempt to problematize issues that, for centuries, have depicted gender and moralism as elements conditioned by the same form of subordination.

A mon seul désir is inspired by and responds directly to a medieval set of six tapestries known as The Lady and the Unicorn, woven probably in the late 15th century in the region of Flanders, in Europe. Each tapestry symbolizes one of the five bodily senses: taste, sight, hearing, smell, and touch. The sixth sense portrayed in the series, however, and which deviates from the conventional lessons of physiology, is the spark that ignites Gaëlle Bourges’ creation. The tapestry representing this sixth sense is titled a mon seul désir – the same name given to Bourges’ danced work – and it brings forth another physiological dimension, one grounded in desire. This sixth sense is formed through all the others, woven not only from their habits, but also from the gaps that open them up to the possibility of becoming something else. Desire is, at once, the product and the fuel of our perceptions of the world.

The way we perceive the world, in fact, cannot be separated from the games of representation constructed upon it. The History of Art has played – and continues to play – a central role in nurturing the dreams that shape both imagination and action. In A mon seul désir, Bourges questions why and how the imaginaries and behaviors represented in works such as The Lady and the Unicorn still persist and continue to shape the manifestations of desire.

The structure of A mon seul désir mirrors the organization of the tapestries in its construction of allegories. In the medieval work, the five senses are symbolized through various scenes: (1) a lady accepting sweets offered by a maid (taste); (2) the lady playing an instrument (hearing); (3) the lady seated, holding a mirror, as a unicorn gazes at her reflection (sight); (4) a garland being made, from which a monkey picks a flower to smell (smell); (5) the lady touching the unicorn’s horn, while a lion watches (touch). The sixth sense, however, is rendered in a broader tapestry, whose narrative has led to multiple interpretations – ranging from the renunciation of passions awakened by the senses to the expression of purity through virginity. Bourges’ A mon seul désir marks itself as an allegory that, combining all the others, bursts open the restrained dimension of the medieval work. If, in the tapestries, the unicorn was the mythological creature that would only approach that which was deemed pure, in Bourges’ choreography it is the figure of another animal – the rabbit – that reconfigures these entrenched categories.

A mon seul désir is a choreography that openly embraces analog technology and communication. In the Theory of Information, the distinction between a digital and an analog message lies in how information units are transmitted. In digital communication, they appear as discrete units (as in alphabets, musical notes, or numeric systems); in analog, there is continuity between the elements, so that even without precise counting, meaning is conveyed directly (as with maps or graphs). Bourges’ performance, therefore, works analogically with the multiple layers of meaning constructed throughout its unfolding. In communicating through a mode of thought based on correspondence, the work activates whole blocks of poetic construction, bringing to movement the visualities, sounds, smells, tastes, and textures evoked in the tapestries.

For instance, in a specific moment of the performance, a litany of flower names is spoken. From lilies and roses to chrysanthemums and lesser-known blooms, a synesthetic activation begins with the spoken word, but soon weaves into other domains of storytelling orchestrated on stage. Memory, poetic visual script, and the dancers’ movements invite us to see the tapestries anew – no longer through the lens of moralizing naivety.

Seemingly composed of only three dancers and a narrator, Bourges’ creation suddenly multiplies – much like rabbits. In a kind of second act, a multitude of bodies appear on stage. Throughout the piece, images of various figures – both mythological (as seen in the tapestries: unicorn, lion, monkey) and mundane – emerge, including the simple presence of diverse, naked human bodies, each with their singularities.

At a certain moment, the work presents a provocation, drawing a distinction between what belongs to the realm of physics (such as a pregnant woman, who, by definition, cannot be a virgin) and what belongs to metaphysics – that which can only be understood by surpassing the logical bounds of physical reality (as in the symbolic plausibility of virginity coexisting with pregnancy). In some way, A mon seul désir invites us to consider certain interpretations through a metaphysical lens, while also urging us to translate our understandings into other forms of conduct. The lasciviousness of a rabbit, for example, moving in opposition to the “pure morality” embodied by the unicorn, might serve as a provocation – suggesting that limiting representations, whether in the History of Art or in the media portrayals of the body today, should no longer govern the loom of our imagination.

The performance makes reference to the film Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979), claiming that the film blends a range of sensations – beauty, terror, awe. Using one of the track from its soundtrack, A mon seul désir ends with This is the End, a song by The Doors, which states:

 

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

 

It hurts to set you free

But you'll never follow me

The end of laughter and soft lies

The end of nights we tried to die

This is the end

 

The death of certain paradigms, and the end of specific habits – of thought, of action, of representation – are long, painful, costly processes. Yet they are essential if the world is to change. A mon seul désir thus emerges as one more voice among many that have responded with a firm no to the world's worn-out continuities.

 

[Translated with AI support]

Rodrigo Monteiro

Rodrigo Monteiro é professor e pesquisador das Artes do Corpo. Interessa-se pela aliança entre a curadoria e a crítica, bem como pelos agenciamentos artísticos e culturais que podem emergir do encontro desses campos. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua trajetória profissional, teve contato com referências e experiências artísticas que o guiaram para os estudos teóricos sobre o corpo, as ciências cognitivas, a semiótica e a filosofia política. Com isso, as Artes do Corpo, como por exemplo a Dança e o Teatro, são vistas por ele à luz de uma ótica indisciplinar, que, ao propor conexões inabituais, convida o pensamento a se movimentar.

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