
Tragédias dançadas
Tragedies Danced [EN below]
A partir do trabalho Reino dos bichos e dos animais, esse é meu nome
(Reflexões feitas a partir da apreciação de uma pessoa vidente e ouvinte)
Nos últimos anos, felizmente, tem-se discutido e tentado encontrar soluções para ampliar as formas de acessos em diferentes contextos, que vão desde a acessibilidade estrutural, que ainda pouco reinventa a arquitetura de muitos lugares, às acessibilidades atitudinais, que vêm sendo debatidas e aprimoradas em ambientes diversos. A inclusão, contudo, é uma questão que, para ser realmente transformada em ação, demanda uma articulação extensa, complexa – e, portanto, necessária – de uma série de atores sociais. Na dança, tal questão, há tempos, enfrenta diferentes entendimentos e maneiras de encarar esse fato. Muitas ainda recorrem a uma lógica perversa de superação, na qual quem, independentemente de suas singularidades corporais, se adequa a um modelo dado, torna-se também uma espécie de modelo a ser seguido, um tipo de “exemplo”. Há, no entanto, outros entendimentos possíveis, que não apenas resistem a essa limitação, como também propõem outros modos de existência. Nesse contexto, o Coletivo CIDA (Coletivo Independente Dependente de Artistas) cria, para seus integrantes e para quem os assiste, investigações que convidam o corpo a encontrar estados outros para perceber, estar e agir no espaço envolta.
Em Reino dos bichos e dos animais, esse é meu nome, o Coletivo CIDA, além de propor os acessos atitudinais como atravessamento de todo o trabalho (a exemplo das comunicações que se constroem também através da Libras e da audiodescrição), experimenta uma outra natureza de acesso: a da contextualização de suas temáticas. Ao funcionar como uma espécie de interlúdio, a narração que inicia a apresentação explica os interesses, as origens e as ignições que resultaram naquilo que apreciamos. De algum modo, essa é uma escolha que ativa, dentro da obra, uma mediação de si própria – característica que fornece às pessoas espectadoras os vocabulários de uma língua que será pronunciada. Naquilo que diz respeito à formação ou a aproximação com os públicos, o acesso em questão pode ser um convite para que, para além do contato prévio com certos vocabulários, consigamos desarticular e rearticular gramáticas corporais inusitadas.
Nesse trabalho, o Coletivo CIDA problematiza a diversidade a partir de estratégias que não se limitam à tematização. A diversidade e a singularidade corporal são temas, mas também se apresentam através da presença concreta das dançarinas e dos dançarinos em cena, o que leva o trabalho a mover múltiplos níveis de descrição de uma mesma discursividade.
Em sua organização em capítulos, Reino dos bichos e dos animais, esse é meu nome desdobra assuntos como amebas e identidades, e tem como motor central uma personagem fundamental, que é inspiração para essa criação: Stella do Patrocínio (1941-1992). Poeta que ganhou reconhecimento após a sua morte, depois de mais de três décadas confinada em instituições psiquiátricas, Stella do Patrocínio foi e continua sendo uma inventora do fluxo da língua. Stella e o Coletivo CIDA aproximam-se e complementam-se quando, por exemplo, emanam gestos que fazem ecoar as suas vozes. Frente a uma sociedade normatizadora, repleta de sexismos, patriarcalismo e racismos, e que se valeu de protocolos médicos que excluem todas e todos que se diferenciam desse estatuto, Stella e o Coletivo CIDA promovem denúncias e levantes poéticos para que essa mesma sociedade possa se reinventar.
Reino dos bichos e dos animais, esse é meu nome, como o próprio coletivo afirma, não é uma obra sobre, mas com e para Stella do Patrocínio. Na composição, através de palavras e corpos diversos, bem como através da experimentação da linguagem, aciona-se uma forma de reavivar a presença de Stella. O Coletivo CIDA presenteia-nos com a representificação de Stella.
Ao passo que, para a poeta, muito do que por ela foi criado deu-se a partir de um jogo de desarticulação da própria linguagem, para a obra do Coletivo CIDA, a oferta de linguagens variadas pode também ser compreendida como um convite à desestabilização. A utilização e a apresentação de todos os recursos de acessos, para aqueles e aquelas que deles não precisam, pode levar a sensação de excesso e de incompreensão. Tudo isso pode provocar incômodo e perplexidade naquelas e naqueles que são, ao mesmo tempo, ouvintes e videntes. Para tais espectadores, uma ação de exclusão – artisticamente orquestrada – talvez seja endereçada. Isto é, se na realidade de muitas pessoas surdas, cegas, ou que têm alguma singularidade de mobilidade, a exclusão é um traço literal e radical, na virtualidade da apresentação do Coletivo CIDA a exclusão é performativamente acionada. Não há intenção de exclusão, mas é no gesto de explodir e trazer para a cena possibilidades variadas de inclusão, quando notamos o fato de que a normatividade é, no fim, mera ficção. Em Reino dos bichos e dos animais, esse é meu nome, os ruídos não são calados, pois, ao migrarem para a superfície, contestam a assepsia plástica que esperamos dos trabalhos cênicos.
O Coletivo CIDA dança uma tragédia – uma tragédia que se recusa a se referir aos textos clássicos da dramaturgia teatral, mas que se debruça sobre o cotidiano das pessoas que têm suas existências o tempo todo vulnerabilizadas. No fim dessa que é uma tragédia dançada, são suscitados, contudo, novos começos. O encerramento da apresentação dá-se de tal maneira em que a aproximação é instigada. Antes dos agradecimentos habituais, compostos por palmas e reverências, as e os artistas instauram um grau de espanto e dúvida. No contato tato-com-tato e olho-no-olho que criam com a plateia, colocam em suspensão determinados hábitos de atenção. Uma dúvida, que aos poucos se transforma em reconhecimento, possibilita que algo novo comece a decantar. Apesar da tragédia, é no fim que algo outro inicia seu processo de florescimento.
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Tragedies Danced
Reflections which leave from Kingdom of beasts and animals, that is my name, by Coletivo CIDA (an acronym in Portuguese for Independent Dependent Collective of Artists)
(Impressions from a sighted and hearing person)
In recent years, and fortunately so, much has been discussed and attempted in the search for expanded forms of access across different contexts—ranging from structural accessibility, which still rarely reimagines the architecture of most spaces, to attitudinal accessibilities, increasingly debated and refined in various environments. Inclusion, however, remains an issue that, in order to truly become action, demands an extensive and complex—therefore necessary—articulation among multiple social agents. In dance, this issue has long faced a range of understandings and responses. Many still fall back on a perverse logic of "overcoming," in which those who, regardless of their bodily specificities, conform to a given model are also turned into that very model—an "example" to be followed. There are, however, other understandings—ones that not only resist this limitation but also propose other ways of being. Within this context, Coletivo CIDA creates investigations that invite both its members and its audiences to discover alternative bodily states—ways of sensing, being, and acting in the space around them.
In Kingdom of beasts and animals, that is my name, Coletivo CIDA not only incorporates attitudinal access throughout its work (as seen in the use of Brazilian Sign Language and audio description as integral modes of communication), but also experiments with a different kind of access: thematic contextualization. Functioning almost as an interlude, the narrated introduction to the performance lays out the interests, origins, and sparks that ignited the creation we are about to witness. In this way, the work enacts a mediation of itself—offering viewers a vocabulary for the language about to be spoken. In terms of audience engagement and education, this kind of access becomes an invitation: to not just become familiar with new vocabularies, but to dismantle and reconstruct unusual bodily grammars.
In this work, Coletivo CIDA engages with diversity through strategies that go beyond mere representation. Diversity and bodily singularity are not only themes—they are made present, concretely, through the dancers on stage. This moves the piece to operate on multiple levels of a single discourse.
Structured in chapters, Kingdom of beasts and animals, that is my name unfolds themes such as amoebas and identities, driven by a central figure who inspired this creation: Stella do Patrocínio (1941–1992). A poet who only gained recognition posthumously, after spending over three decades confined in psychiatric institutions, Stella was—and remains—a creator of linguistic flows. Stella and Coletivo CIDA converge and complement each other, for instance, when they channel gestures that echo voices. In the face of a norm-driven society—marked by sexism, patriarchy, and racism, and upheld by medical protocols that exclude anyone diverging from its standards—Stella and Coletivo CIDA stage poetic uprisings and acts of resistance that call for reinvention.
Kingdom of beasts and animals, that is my name, as the collective affirms, is not a work about Stella do Patrocínio, but with and for her. Through the composition of diverse words and bodies, and through experimentation with language, the piece reanimates Stella’s presence. Coletivo CIDA offers us a re-representation of Stella.
While Stella's poetry was often born from a disarticulation of language itself, Coletivo CIDA’s work—by offering multiple languages—also invites a destabilization. For those who do not depend on accessibility resources, their presentation may seem excessive or disorienting. This can create discomfort and even bewilderment among sighted and hearing spectators. Perhaps, in this case, a kind of exclusion—artistically orchestrated—is being enacted. If, in reality, many deaf, blind, or physically singular individuals are subjected to literal and radical exclusion, then in the virtuality of Coletivo CIDA’s performance, exclusion is performatively activated. This is not exclusion as intention—but rather, through the act of bursting open the stage with diverse possibilities of inclusion, we begin to see that normativity is, in the end, a fiction. In Kingdom of beasts and animals, that is my name, noise is not silenced. On the contrary, it surfaces and confronts the sterile polish we so often expect from stage works.
Coletivo CIDA dances a tragedy—a tragedy that refuses to reference classical dramatic texts, choosing instead to turn its gaze toward the daily lives of those whose very existence is perpetually rendered vulnerable. Yet, from the depths of this danced tragedy, new beginnings emerge. The piece ends not with conventional bows and applause, but with an invitation to proximity. In moments of hand-to-hand contact and eye-to-eye encounter with the audience, the performers suspend expected forms of attention. A doubt arises—one that gradually becomes recognition—making space for something new to begin its slow descent. Despite the tragedy, it is at the end that something else begins to blossom.
[Translated with AI support]








