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Cellule [Cela], de Nach Van Van Dance Company

Por: Rodrigo Monteiro
outubro - 2025
Crédito: Mark Maborough

Identidade em suspensão

Suspended Identity [EN below]

 

Atualmente – mas também já há um tempo –, diversas e diversos artistas da dança recorrem a um treinamento corporal em específico, sofisticando-se em um vocabulário para poder explorá-lo não de modo restrito às gramáticas já estabelecidas por uma modalidade, mas para experimentar arranjos outros. A partir do contato com diferentes artistas, grupos, companhias, mas também a partir de atravessamentos com ambientes distintos (da universidade, do cotidiano, de contextos não-artísticos variados), muitas criações buscam explorar as variabilidades de suas composições e, junto com elas, de seus processos de comunicação. Em seu primeiro solo, Cellule [Cela], Nach (nome artístico da francesa Anne-Marie Van) parece seguir esse percurso: a partir do Krump (sigla de Kingdom Radically Uplifted Mighty Praise/ em português: "Reino Poderosamente Elevado e Louvado"), uma vertente do Hip Hop, ela parte dessa modalidade, mas expande as suas possibilidades de apresentação em cena.

Cellule [Cela] inicia com algumas projeções de imagens, que ora sugerem ser protestos, passeatas ou manifestações, ora sugerem ser apenas registros de uma cidade que segue o seu fluxo cotidiano. Ao longo de toda a performance, há uma multiplicidade de imagens, tanto as de origem audiovisual, quanto as que são criadas no corpo de Nach. Cellule [Cela], apesar de ser uma única obra, ativa, em certa instância, uma assembleia, já que disponibiliza não somente uma reunião de diversas imagens, mas também faz com que elas gerem debate e movimento entre si. As imagens não são colocadas lado a lado de modo estático. Ao colocarem-se em movimento, elas também geram movimento.

O Krump nasce no início dos anos 2000 como uma resposta à repressão policial e aos conflitos raciais em bairros de Los Angeles. Criado por Cesare "Tight Eyez" Willis e Jo'Artis "Big Mijo" Ratti, o Krump originou-se do Clowning, uma dança que se utiliza de maquiagem de palhaço e roupas extravagantes. A continuidade de uma para outra, do Clowning para o Krump, é que a extravagância da primeira passou a dar lugar a uma movimentação intensa para a segunda, pautada em sentimentos de raiva e de frustração. Nach, contudo, uma vez que parte, mas não se restringe ao Krump, experimenta arranjos compositivos outros que colocam em suspensão a identidade dessa modalidade.

Na assembleia criada dentro de Cellule [Cela], Nach não apenas suspende a identidade do Krump, mas, através de uma polifonia de elementos, também suspende a própria condição de se entrincheirar o movimento. A ativação desse tipo de questão é fundamental nos tempos atuais, haja visto que, de forma diametralmente oposta à assembleia, temos percebido, dentro e fora das criações cênicas, o enclausuramento de identidades e a homogeneização das formas de se pensar e de se falar. Cellule [Cela], portanto, mesmo sendo uma voz destoante em um cenário em que ecos são replicados, ativa os ruídos necessários para que alguma imanência da polis seja reanimada.

Ao ativar polifonicamente a performance a partir de seu próprio corpo, Nach levanta questões que não se limitam à sua individualidade. Na mesma medida em que profere um enunciado de si, traz consigo as vozes de toda uma multidão – uma multidão que não é uma massa uniforme, mas que consegue protestar, ao mesmo tempo, em nome de todos e de cada um. Em Cellule [Cela], o som do movimento e o som do corpo debatem e provocam uma reunião, assim como o peso e a elevação do corpo, que, para além de antagonistas, se apresentam enquanto réplicas e tréplicas de uma discussão.

Também as intensidades dos gestos seguem essa lógica. Tradicionalmente, o Krump é reconhecido pela força que impregna em sua execução, mas Nach também investiga as fragilidades e as sutilezas de seus tônus. Especificamente em um momento em que convoca diversos elementos de uma única vez (como voz falada, gestos, projeção de imagens e combinação de luzes), quando um foco avermelhado é colocado sobre si, Nach realça nivelações de forças, mesmo quando seus gestos são contidos. Inevitável deixar de mencionar os jogos de luzes que são feitos ao longo de toda a apresentação. Em arranjos variados de claro e escuro, Cellule [Cela] escreve no espaço tonalidades que fazem com que os olhos busquem os ritmos que marcam as suas presenças. Ao invés de simplesmente guiar, a lanterna não recorta um foco, mas redimensiona o próprio formato de visualização.

Outro ponto de destaque é a recusa de um corpo para estar apenas na verticalidade. Cellule [Cela] é uma dança que também se constrói na horizontalidade, mostrando que os apoios, mesmo nessa posição, podem ser intercambiáveis, alternados e múltiplos. Em uma pequena travessia de uma ponta a outra da cena, ao invés de deslizar, Nach encontra caminhos outros para mover-se e deslocar-se, mesmo com quase toda a sua área corporal em contato com o chão. Os problemas colocados nessa cena se apresentam, com isso, enquanto problemas reais, e não meramente enquanto ataques discursivos – o que contribui para realçar o lugar de Cellule [Cela] como uma dança que, da assembleia, movimenta e debate questões, ao invés de pseudo resolvê-las ou pseudo respondê-las.

Iniciado como expressão de um protesto, o Krump emana vozes de indignação e desejo por igualdade e justiça. Nach, em Cellule [Cela], potencializa as materialidades dessa manifestação, à medida que ultrapassa as limitações desenhadas pela e na própria modalidade. Em busca de romper com esse confinamento, trata-se de um trabalho que polifoniza não apenas as palavras de uma mesma língua, como também nela incorpora léxicos outros, de modo a investigar os inúmeros arranjos de estados corporais de um único indivíduo.

 

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Suspended Identity

Today — though not only today — many dance artists have turned to specific forms of physical training, refining a vocabulary not to be constrained by the established grammar of any one modality, but to explore alternative arrangements. Through encounters with other artists, groups, and companies, and through crossings with diverse environments (academia, everyday life, and various non-artistic contexts), many creative processes seek to explore the variability of their compositions — and, with that, the variability of their modes of communication. In her first solo piece, Cellule [Cage], Nach (the stage name of French artist Anne-Marie Van) appears to follow this path: drawing from Krump (an acronym for Kingdom Radically Uplifted Mighty Praise), a branch of Hip Hop, she begins with this modality but expands its possibilities of presentation on stage.

Cellule [Cage] opens with projected images — at times suggesting protests, marches, or demonstrations, at times simply capturing a city in its daily flow. Throughout the performance, there is a multiplicity of images, both audiovisual and embodied in Nach’s physicality. Though Cellule [Cage] is a single work, it activates, to a certain extent, an assembly: not only does it bring together a range of different images, but it also allows them to provoke discussion and movement among themselves. These images are not statically placed side by side. In movement, they generate movement.

Krump emerged in the early 2000s as a response to police repression and racial conflict in neighborhoods of Los Angeles. Created by Ceasare “Tight Eyez” Willis and Jo’Artis “Big Mijo” Ratti, Krump evolved from Clowning — a dance style that uses clown makeup and flamboyant costumes. In the transition from Clowning to Krump, extravagance gave way to an intense physicality, driven by feelings of anger and frustration. Nach, however, while starting from Krump, does not limit herself to it; instead, she experiments with other compositional arrangements that suspend the identity of the form itself.

In the assembly staged within Cellule [Cage], Nach not only suspends the identity of Krump, but — through a polyphony of elements — also suspends the very notion of movement as something that must be entrenched or fixed. Raising such questions is vital in today’s world, where, in contrast to assemblies, we are witnessing both inside and outside of performance art a cloistering of identities and a homogenization of thought and expression. Cellule [Cage], then, even as a dissonant voice in a landscape of echoed repetition, activates the necessary noise for something of the polis to be reanimated.

By polyphonically activating the performance through her own body, Nach raises questions that extend beyond individual subjectivity. As much as she speaks from herself, she carries the voices of a multitude — a multitude not as a uniform mass, but as a collective capable of protesting on behalf of both everyone and each one. In Cellule [Cage], the sound of movement and the sound of the body engage in debate and call forth a gathering, just as the weight and lift of the body — more than opposites — respond and counterrespond within an ongoing dialogue.

The intensities of gesture also follow this logic. Traditionally, Krump is known for the forcefulness embedded in its execution, but Nach also explores its fragilities and the subtleties of its tone. In one particular moment, as she summons multiple elements simultaneously (spoken voice, gestures, projected images, and lighting), a red spotlight falls on her, highlighting gradations of force, even when her gestures are restrained. The use of light throughout the performance cannot go unmentioned. In varied arrangements of brightness and shadow, Cellule [Cage] inscribes tonalities into space, prompting the eye to seek out the rhythms that shape their presence. Rather than simply guiding attention, the flashlight doesn’t isolate a focal point — it redefines the very structure of seeing.

Another striking element is the refusal of the body to remain solely upright. Cellule [Cage] is a dance that also unfolds horizontally, showing that even in this position, supports can be interchangeable, alternating, and multiple. In a small crossing from one end of the stage to the other, Nach avoids sliding — instead, she finds other paths for movement and displacement, with almost her entire body in contact with the ground. The issues raised in this piece emerge not merely as discursive provocations, but as real, physical problems — which reinforces Cellule [Cage]'s place as a dance that, from within its assembly, stirs and debates rather than pseudo-solving or pseudo-answering.

Born as a form of protest, Krump emanates voices of indignation and a yearning for justice and equality. In Cellule [Cage], Nach enhances the materiality of this expression by pushing beyond the boundaries drawn by and within the form itself. Seeking to break out of this confinement, her work polyphonizes not only the words within a single language but also incorporates other lexicons into it — in order to explore the countless arrangements of bodily states within a single individual.

 

[Translated with AI support]

 

Rodrigo Monteiro

Rodrigo Monteiro é professor e pesquisador das Artes do Corpo. Interessa-se pela aliança entre a curadoria e a crítica, bem como pelos agenciamentos artísticos e culturais que podem emergir do encontro desses campos. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua trajetória profissional, teve contato com referências e experiências artísticas que o guiaram para os estudos teóricos sobre o corpo, as ciências cognitivas, a semiótica e a filosofia política. Com isso, as Artes do Corpo, como por exemplo a Dança e o Teatro, são vistas por ele à luz de uma ótica indisciplinar, que, ao propor conexões inabituais, convida o pensamento a se movimentar.

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