
Uma magia, uma desintoxicação da imaginação
A magic, a detox of the imagination [EN below]
Um canto de uma sereia tem papel ambivalente em sua elocução: encanta e atrai, ao mesmo tempo que apavora e afoga. Em uma referência à figura de Mami Wata (uma divindade de água venerada nas tradições espirituais da África Ocidental, Central e Austral), Mascarades, concebido por Betty Tchomanga e performado por Ndoho Ange, presentifica, em seus gestos, a força, a mágica e o espanto de um mito.
No início, uma sereia, mas também uma monja, uma bruxa, uma sábia ou uma anciã, que murmura e atravessa uma diagonal. Na penumbra, em meio às sombras, nossa atenção é guiada por um canto que se compõe por murmúrios que nos encantam, mas que também fazem duvidar do tipo de ser que começa a se manifestar. Como ponto inicial do trabalho – ou, em analogia à música, como uma primeira nota dada –, a ambientação de uma atmosfera que promove estranhamento combinado à indagação realça a coerência das escolhas feitas: enquanto assunto, a sereia aproxima e seduz a partir de sua peculiaridade; enquanto composição coreográfica, é através do movimento que insiste em não se definir que temos a oportunidade de com ele flertar.
O murmúrio transforma-se em grito, que parece clamar algo que, de tão visível, não conseguimos mais perceber. Mascarades articula-se como um rito que não se resume a materializar e atualizar um mito, mas também como uma convocação de vozes espectrais. Aquilo que deixamos de ver porque, de um modo ou de outro, tornou-se banal, é qualificado pela performance de Ndoho Ange, que nos incita à beleza na mesma medida em que nos desperta para o horror.
Em cena, tudo é movimento; tudo é passo que ativa uma movimentação. Os olhos de Ange fazem do ritmo abre-e-fecha de suas pálpebras uma experiência de transe, que para além de representar qualquer tipo de incorporação, traz para a dimensão concreta e factual da imanência a urgência de se encarar as vicissitudes que configuram uma situação. Ou seja, nesse rito, que performativamente se recria na alternância contínua das coisas que se sucedem, há uma chamada para se atentar para aquilo que é fortuito e belo, mas também para aquilo que não é dito das inúmeras violências que implodem a nossa vitalidade. A criação de Betty Tchomanga é um manifesto poetizado, já que, na poesia dura e incisiva que dança, faz com que o nosso próprio modo de estar na linguagem seja rasgado e redimensionado.
O modo de estar na linguagem é, aliás, um importante ativador dentro da coreografia. A partir da batida do som, de saltos continuados e da repetição que leva à exaustão, Ange instaura, em si e no ambiente ao redor, uma espécie de furacão. A linguagem de Mascarades, portanto, não é dada e engessada, mas territorializada a cada uma de suas pulsações. Por exemplo, em seu salto constante, conforme colocado pela própria artista, “há um ponto em que o corpo se liberta, encontra um segundo fôlego, muda de vibração”. Nessa e em outras insistências que são postas na cena, Ange materializa domínios que ficam entre o enraizamento e a elevação, o que proporciona ao corpo a experiência de transmutação.
Em certo momento, ainda na repetição, a bruxa-sereia-maga dançada por Ange faz de seu corpo uma poção de arranjos e impressões. Seus cabelos, que também parecem medrar de seu rosto e púbis, desprendem-se e chicoteiam, transformando-se em asas e balizas. Um ser em estado de monstruosidade surge, trazendo consigo um pedido: revelem e soltem as bestas.
Mascarades é um acontecimento que traz à tona muitos fantasmas de uma colonialidade ainda marcante e pulverizada, e às vezes sutil e sorrateira. No texto falado que se apresenta como gesto, e em um inglês entrecortado e fatiado, Ange profere palavras como carne e sangue. Em cena, com isso, são violentamente manuseadas as reverberações da própria violência. As bestas que são soltas fazem ecoar feridas físicas e psíquicas, e que foram e continuam sendo impregnadas nos corpos de uma grande maioria da população, sobretudo daqueles e daquelas que, sob o facão dos colonialismos, tiveram e continuam tendo suas pulsões de vida ceifadas.
Algum tempo depois, mas agora em um texto cantado em rap, a performer faz mover outros níveis desse mesmo debate. Na canção que apresenta, expressões como “a crueldade enquanto um ritual” e “a caça é nacional” escancaram ainda mais que vivemos em uma época na qual a manifestação das maldades não apenas é generalizada, mas também gestada pela própria máquina governamental. Para além das bestas espectrais, e que são reativadas pelo fatiamento proporcionado pelo trabalho, há também a denúncia de uma economia do medo e do terror, que se fortalece à medida que coloca em circulação imagens dissimuladas sobre o inimigo. Nessas imagens criadas por uma governamentalidade da realidade, o monstro é o ser que provoca o desespero. Em Mascarades, ao contrário, o monstro é o que desfaz essa magia, oferecendo-nos antídotos para desintoxicar a imaginação.
Mascarades faz, de certa maneira, aquilo que, no livro Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando, o pesquisador Paul Preciado chama de “mudras dissidentes”. Situados em determinadas tradições, a exemplo do hinduísmo e do budismo, os mudras são gestos do corpo, como das mãos e dos braços, que têm como objetivo fornecer paz e benevolência, afugentando, assim, aquilo que causa o medo. O trabalho de Betty Tchomanga, dançado por Ndoho Ange, no entanto, faz emergir mudras pagãos e dissidentes, pois rearticulam a política através de gestos de insurreição. Nesse sentido, a menção à Mami Wata não é mera inspiração, muito menos lugar de uma personagem, já que é conclamada, o tempo todo, enquanto estado de presença que resiste a um estado de exceção.
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A magic, a detox of the imagination
A siren’s song holds an ambivalent role in its utterance: it enchants and lures, even as it terrifies and drowns. In a reference to the figure of Mami Wata – a water deity revered in the spiritual traditions of West, Central, and Southern Africa – Mascarades, conceived by Betty Tchomanga and performed by Ndoho Ange, brings into presence, through gesture, the power, the magic, and the awe of a myth.
At first, a mermaid – but also a nun, a witch, a sage, or an elder – murmurs and crosses a diagonal. In the half-light, among shadows, our attention is led by a song composed of whispers that enchant us, yet also make us question the kind of being beginning to take form. As the initial point of the work – or, in a musical analogy, as a first note struck – the staging of an atmosphere that blends estrangement and inquiry highlights the coherence of the choreographic choices: as subject, the mermaid draws us in with her singularity; as choreographic composition, it is through movement that resists definition that we are invited to flirt with it.
The whisper becomes a scream, seeming to cry out something so visible we can no longer see it. Mascarades unfolds as a rite that is not only about materializing or updating a myth, but also about summoning spectral voices. That which we have stopped seeing – because it has, in one way or another, become banal – is reframed through the performance of Ndoho Ange, who invites us toward beauty just as she awakens us to horror.
On stage, everything is movement; every step sets a motion into play. Ange’s eyes, in the rhythmic opening and closing of her eyelids, create a trance experience that, beyond representing any kind of possession, brings into the concrete and factual dimension of immanence the urgency of confronting the vicissitudes that shape a situation. That is, in this rite, which performatively recreates itself in the continuous alternation of unfolding events, there is a call to pay attention to what is fleeting and beautiful, but also to the unspoken layers of the countless violences that implode our vitality. The creation by Betty Tchomanga is a poetic manifesto, for in the hard and incisive poetry that it dances, it tears apart and reconfigures our very way of being in language.
This way of being in language, in fact, is a key activator within the choreography. From the beat of the sound, to the repeated jumps, to the exhaustion-inducing repetition, Ange establishes within herself – and in the space around her – a kind of hurricane. The language of Mascarades is therefore not given or fixed, but territorialized with each pulse. For example, in her constant jumping, as the artist herself puts it, “at a certain point, the body lets go, finds a second wind, and shifts its vibration.” In this and other repeated gestures on stage, Ange materializes domains that oscillate between rooting and elevation, offering the body an experience of transmutation.
At a certain moment, still within the realm of repetition, the witch-mermaid-mage embodied by Ange transforms her body into a potion of arrangements and impressions. Her hair – sprouting, it seems, from her face and pubis – detaches and lashes, becoming wings and beacons. A being in a state of monstrosity emerges, bringing with it a demand: reveal and unleash the beasts.
Mascarades is an event that conjures many ghosts of a still-pervasive, fragmented coloniality – at times subtle, at times insidious. In the spoken text delivered as gesture, in fractured, stuttering English, Ange utters words like flesh and blood. Onstage, what reverberates violently is violence itself. The beasts released echo physical and psychic wounds, wounds that have been – and continue to be – inscribed on the bodies of the vast majority, especially those whose life forces have been, and still are, severed under the machete of colonialisms.
Later on, in a rap verse, the performer activates other layers of this same debate. In the song she presents, phrases like “cruelty as ritual” and “the hunt is national” lay bare that we live in a time when the manifestation of evil is not only widespread but also incubated by the governmental machine itself. Beyond the spectral beasts reawakened by the fragmentation offered in the piece, there is also a denunciation of an economy of fear and terror, which gains strength as it circulates distorted images of the enemy. In these governmentally produced visions of reality, the monster is the one who provokes despair. In Mascarades, on the contrary, the monster is the one who breaks that spell, offering us antidotes to detoxify the imagination.
Mascarades does, in a way, what the researcher Paul Preciado, in his book Dysphoria Mundi: A Diary of Planetary Transition, calls “dissident mudras.” Rooted in certain traditions – such as Hinduism and Buddhism – mudras are bodily gestures, often of the hands or arms, intended to bring peace and benevolence, warding off what causes fear. The work of Betty Tchomanga, danced by Ndoho Ange, however, summons pagan and dissident mudras, for they rearticulate politics through gestures of insurrection. In this sense, the reference to Mami Wata is not mere inspiration, much less the positioning of a Character – it is a state of presence that resists a state of exception.
[Translated with AI support]








