Oblíqua
Voltar para críticas

Borda, de Lia Rodrigues Companhia de Danças

Por: Rodrigo Monteiro
outubro - 2025
Crédito: Sammi Landweer

Em nossas mãos

 

Borda estreia em São Paulo dois dias depois do pior massacre da história do Rio de Janeiro, quando, em 28 de outubro de 2025, mais de 120 pessoas tiveram suas vidas ceifadas por uma necropolítica que há tempos vem sendo gestada. Invisível em sua articulação, mas extremamente concreta em sua realização, trata-se de uma violência que resulta em distintos níveis de morte: da literal, que põe fim à vida, até aquela que, gradativamente, esvai as dimensões coloridas e profundas das nossas existências. Borda nasce, com isso, para mostrar que a dimensão do que é vivo é sempre maior, e que, mesmo diante da barbárie, há impulsos que buscam garantir a sofisticação de nossa sensibilidade – aptidão esta que, se coletivamente desenvolvida, talvez seja um dos caminhos para alguma salvação.

Há 35 anos, a Lia Rodrigues Companhia de Danças articula não apenas coreografias, mas também – e sobretudo – modos de existir. No Complexo de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, desde 2004, compõe danças que extravasam a área de apresentação, seja ela o palco ou um galpão, porque o entendimento com o qual trabalha lida com o movimento como um acionador estético-politico de estados de presença. Alteram-se os modos de o corpo estar em um ambiente; alteram-se as maneiras como o ambiente proporciona encontros e vivências; alteram-se as percepções e as possíveis ações que qualificam a relação entre as pessoas e um território.

Borda costura, recicla, revive e transforma aspectos diversos da companhia e de seus trabalhos anteriores. Traz de volta a calmaria e a tempestade acionadas por um grande plástico de Pindorama (2013). Reativa o gesto de lançar roupas para o alto, experimentado em Pororoca (2009), que evidenciou que o fazer junto demanda fôlego e negociação constante, em contraste à ideia de que, para estar em grupo, basta fazer igual e ao mesmo tempo. Continua também as ignições de Fúria (2018) e de Encantado (2021), quando apresentou, respectivamente, as escuridões construídas por uma Necrópolis e as multicores que sobre ela precisam ser projetadas. Em Borda, aliás, Lia Rodrigues fecha não uma trilogia, mas um tríptico (com Fúria e Encantado), já que, cada uma dessas obras, apesar de fazerem conexões entre si, tem a sua potência e a sua autonomia de significação.

Referência extremamente significativa para Lia Rodrigues, a figura de Mário de Andrade também é retomada: não somente enquanto escritor ou intelectual, mas também enquanto um passo de dança. Já articulado em trabalhos anteriores da Companhia (em Folia I e II, de 1996 e 1997), o autor surge em Borda através da remixagem de gravações de 1938, feitas no norte do país pela Missão de Pesquisa Folclórica, por ele coordenada. Para além de trilha sonora a ser dançada, a música compõe-se enquanto passo, fazendo com que Mário de Andrade presentifique-se na vitalidade de um pensamento que preza pela minúcia, pela diversidade e pela complexidade das expressividades.

Borda começa lento; convida a pausar e pousar o olhar. Chama-nos para assentar os hábitos de ver, clamando por uma desestabilização e reciclagem da atenção. Pede que o silêncio seja escutado e que o barulho seja aquietado. Promulga uma costura perceptiva que encadeia altos e baixos, rasos e profundos, ao ponto de confundir e perturbar esses e outros opostos. Aos poucos, para quem dança e para quem vê, Borda desvela-se e faz revelar figuras variadas, humanas e mais-que-humanas. O que é mostrado, contudo, ainda é indefinido, está em constante estado de fazimento.

Durante a realização coreográfica que compõe a cena, o trabalho desperta possibilidades outras de lidar com a força infinita do movimento. Durante a realização coreográfica para além da cena e que irradia a Maré, o trabalho faz despertar a sensação de finitude, bem como as escolhas que fazemos nos percursos que a definem. O fim pode ser de um indivíduo, mas também de uma comunidade; pode ser até mesmo da própria humanidade. O fim, todavia, pode ser de um regime, assim como de suas mentalidades e consequentes derivações de comportamento.

A Borda vai se abrindo, se expandindo e mostrando que só é possível de ser criada e dançada porque nela há coabitação de diversidades. Diferentemente do que muito há por aí, na Borda não há uma diversidade de homogeneidades, mas aquela que, na força de sua radicalidade, consegue mover a tensão, o tesão, a paixão, a indignação e tudo mais que faz a vida ser algo de verdade.

No programa distribuído pelo Sesc São Paulo, nas duas páginas de conversa entre Lia Rodrigues e Silvia Soter (dramaturgista com quem há muito tempo a coreógrafa trabalha), é mencionada a importância das mãos para a feitura e a apresentação de Borda. Ambas dão destaque para as mãos nos processos de fabricação e de artesania, que não apenas permitiram tal criação, como também foram e continuam sendo responsáveis pelos modos de ser e estar em companhia. Os figurinos foram confeccionados com as próprias mãos; os bordados de alguns tecidos, idem; os arranjos visuais que se emaranham ao longo da apresentação somente são possíveis graças às muitas mãos que movem cada detalhe de tudo o que está em cena; também são muitas as mãos presentes para viabilizar, orçamentariamente, a realização e a permanência da companhia.

A estreia do espetáculo no Brasil é marcada por um momento triste e preocupante. Muitas durezas características de nossos tempos, das quais lamentavelmente somos vítimas ou testemunhas, parecem ter sido semeadas em momentos já interrompidos, distantes em um passado remoto. Nesse contexto, das inúmeras feridas que continuam expostas, boa parte delas é, sem dúvidas, resultante de um passado brasileiro marcado pela violência colonial. É nesse processo, que faz do passado uma maneira de qualificar o momento atual de construir futuros, que nos constituímos enquanto “povo brasileiro”.  É também nesse meio do caminho que vamos construindo a nossa humanidade. Apesar de, enquanto conceito, o termo humanidade ser extremamente complexo, a humanidade, enquanto ética, tem deixado de encarar e de se encantar com as complexidades da realidade. É nesse mundo, onde o trágico tenta despontar o sublime e o admirável faz resistência ao que nos causa indignação, em que a força da beleza e a força do terror parecem, mais do que nunca, também estar em nossas mãos. Ainda nesse mundo, territórios multifacetados são formados, a exemplo do Complexo de Favelas da Maré, onde formas de violências diversas são contrastadas por levantes poéticos, como os que são criados e refinados pela Lia Rodrigues Companhia de Danças.

As questões emergidas em Borda parecem ter sido tecidas para nos fazer ver o quanto do Brasil ainda precisamos compreender. Semelhantemente a Mário de Andrade, que buscou afinar as antenas para as multiplicidades das culturas brasileiras, Borda e a Lia Rodrigues Companhia de Danças nos convidam não somente a entender, mas também a bordar, com nossas próprias mãos, o imenso tecido que molda as nossas realidades. Que, a partir do exercício das sensibilidades que esse trabalho instiga a treinar, possamos também voltar a nos indignar.

Rodrigo Monteiro

Rodrigo Monteiro é professor e pesquisador das Artes do Corpo. Interessa-se pela aliança entre a curadoria e a crítica, bem como pelos agenciamentos artísticos e culturais que podem emergir do encontro desses campos. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua trajetória profissional, teve contato com referências e experiências artísticas que o guiaram para os estudos teóricos sobre o corpo, as ciências cognitivas, a semiótica e a filosofia política. Com isso, as Artes do Corpo, como por exemplo a Dança e o Teatro, são vistas por ele à luz de uma ótica indisciplinar, que, ao propor conexões inabituais, convida o pensamento a se movimentar.

crossmenu linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram